quanto vale a virgindade?

virginMuitos de vós já certamente conhecem a história que podem ler de seguida, mas decidi publicar aqui este artigo do jornal Público porque o valor que a virgindade desta rapariga atingiu é deveras preocupante. Três milhões de euros?! Na minha opinião ela pode fazer o que bem quiser com a sua virgindade, desde que não prejudique ninguém nesse processo. O que eu realmente não consigo compreender é como alguém paga uma quantia destas para a desflorar. Desculpem, mas não resisti a utilizar esse termo tão carinhoso relativamente à primeira relação sexual da mulher. Considero que três euros já seria muito, pois, sejamos sinceros, a rapariga não é uma grande beleza…

Natalie Dylan, uma californiana de 22 anos, está a leiloar a sua primeira vez na Internet. E parece que há um homem disposto a pagar uma quantia exorbitante pela primícia.

“Dou-lhe uma… dou-lhe duas… e a virgindade da menina Natalie vai para o cavalheiro com o sotaque esquisito.” Ao fim de vários milhares de licitações recebidas desde Setembro, parece que Natalie Dylan, uma norte-americana de 22 anos, pondera aceitar a oferta de um cidadão australiano, de 39, que estará disposto a pagar quase três milhões de euros pela sua virgindade – foi, pelo menos, o que revelou numa recente entrevista telefónica difundida pela CNN. O P2 tentou confirmar esta informação, sem obter resposta em tempo útil, mas o anúncio da licitação continua activo no site do mundialmente famoso Moonlite Bunny Ranch, uma casa de passe com 54 anos de existência e que já teve direito à sua própria série documental na televisão, emitida em Portugal pela SIC Radical. Temos, pois, uma rapariga vendendo a virgindade e um homem disposto a pagar três milhões por aquilo a que os mais antigos chamavam “os três vinténs” dela. Estranho? Nem por isso. Há pelo menos quarenta anos que Bob, o outro Dylan, adverte os habitantes do planeta de que os tempos estão a mudar e, por isso, convoca escritores e críticos, congressistas e senadores, mães e pais, a humanidade em geral, a participar na mudança. Natalie Dylan confirma a inexorabilidade da mudança e, agarrando o mote do velho hino hippie, convoca agora todos os eventuais interessados, em qualquer canto do mundo onde haja acesso à Internet, para mais uma desconcertante manifestação do tempo em movimento bizarro e acelerado: paguem e comprem a virgindade dela. O mundo é, já se sabe, um sítio estranho – e nenhum céptico que se preze fica já surpreendido com tão pouco. Até porque os tempos estão a mudar, conforme avisou Dylan, Bob Dylan, mas, calhando, não mudam tanto assim. “Não vejo grandes diferenças entre a rapariga que licita a virgindade na Internet e aquilo que há séculos se passa nos bordéis: a virgindade da noviça disputada pelos clientes, quase sempre instigados pelo deprimente triunfalismo patriarcal em ser o primeiro”, comenta Bruno Sena Martins, sociólogo e responsável pelo blogue Avatares de um Desejo. Se for mesmo verdade que a prostituição é a mais antiga profissão do mundo, não faltando lendas e histórias de prostíbulos que reservavam as prendas das mais jovens e intocadas meretrizes para os clientes mais ricos e poderosos, o caso é ainda menos original do que parece à primeira vista. A principal novidade, se tanto se pode afirmar, residirá no facto de, neste caso, a virgindade de Natalie estar a ser objecto de um leilão à escala planetária, com honras de cobertura na CNN e página pessoal no Myspace. E, tal como em qualquer licitação na leiloeira virtual eBay, os interessados podem abreviar o aborrecimento dos lances consecutivos e comprar, por uma quantia generosa, o direito de desvirginar Natalie Dylan. Foi o que fez o ainda misterioso australiano, que terá oferecido os tais 3,8 milhões de dólares. Expressão da moral. Tanto quanto se sabe, o negócio ainda não está fechado. Mas a atenção suscitada pelo leilão, o número de interessados e o montante envolvido parece indicar que a virgindade é ainda um valor capaz de motivar a cobiça planetária. “Nunca esperei que tanta gente licitasse, ou que as ofertas fossem tão altas”, confessou a própria Natalie Dylan ao jornal inglês Daily Mail. Para Bruno Sena Martins, porém, a cobiça gerada pela licitação não chega a ser surpreendente: “Queiramos ou não, a centralidade da virgindade (da feminina falamos) estará connosco durante muito tempo. O alto valor que ela adquiriu como expressão simbólica e corpórea da moral sexual patriarcal continua presente no modo como a pensamos: a questão é que as concepções dominantes sobre a virgindade foram invertidas sem serem subvertidas.” Ou seja: “Num tempo que (justamente) celebra a liberdade sexual e a autodeterminação do desejo, a virgindade passa a ser vista como expressão de um problema de relacionamento social, como sinal de uma religiosidade anacrónica ou como sintoma de um libido disfuncional.” “Herdeiros que somos da geração que também se libertou pelo livre curso dos prazeres”, continua o sociólogo, “forjámos uma ideia de autodeterminação pouco capaz de entender quem se determina pela omissão sexual. A mulher que, hoje em dia, permaneça virgem pelos vintes afora está sujeita a uma forte pressão, seja dos namorados, seja das suas amigas. Na melhor das hipóteses, a virgindade dela será vista pelos correligionários de geração como produto de aguda procrastinação.” É neste quadro de transformações que “a virgindade continua a ser ‘sacralizada’, já não como imperativo de castidade, mas como raridade”, concretiza o sociólogo. Se a explicação antropológica para a comoção global parece, assim, capaz de gerar tratados em várias especialidades, os motivos próximos do peculiar leilão são bem mais prosaicos e, de algum modo, de uma inocência desconcertante: Natalie quer, afinal, e segundo revela no anúncio feito no site do Moonlite Bunny Ranch, obter um mestrado sem ter que trabalhar enquanto estuda. O objecto dos supostos estudos, revelado pela CNN, não chega, também, a ser surpreendente: terapia sexual. Nada de errado. Na já referida entrevista à CNN, Natalie Dylan reconheceu que se inspirou no exemplo de uma mulher peruana que fez um negócio parecido e afirmou que não lhe repugna que o leilão seja visto como uma forma de prostituição – actividade, de resto, completamente legal no estado do Nevada, onde está sediado o Moonlite Bunny Ranch. “Creio que as pessoas devem poder escolher o que fazem com o próprio corpo e eu não estou a magoar ninguém. Isto não vai contra a minha religião nem contra a minha moral, pelo que não há nada de errado”, disse. O gesto, apesar de tudo, e como seria de esperar, divide opiniões: “Os teus pais devem estar muito orgulhosos de ti”, comentou, irónico, um dos visitantes da página de Natalie Dylan no Myspace. A mãe da rapariga, matriarca de uma “família conservadora não-cristã”, também não concorda com o peculiar leilão, mas, garante Natalie, continua a amar a filha. “De um modo geral, as pessoas têm-me apoiado”, disse Natalie à CNN, acrescentando que mesmo os seus ex-namorados se revelaram compreensivos e perceberam que tudo não passa de um negócio. “Eles conhecem-me e sabem que eu não sou essa rapariga promíscua de que toda a gente fala”, afirmou. Bem vistas as coisas, e se estivermos dispostos a passar por cima do montante envolvido, a história de Natalie não é, afinal, muito diferente do estereótipo relacionado com qualquer uma das raparigas do Bunny Ranch. A potencial sucessora de Air Force Amy, Brooke Taylor, Monica Morris, Isabella Soprano e Kacey Jordan é, afinal, apenas mais uma rapariga para quem “a prostituição não é um problema”, segundo a qual tudo o que deseja é encontrar um parceiro que a aceite tal como é. Já vimos isto em qualquer lado, sim, mas nem sempre o príncipe das histórias aparece montado num cheque de três milhões.

A imagem é da autoria de titolibio e o texto de Jorge Marmelo, publicado no jornal Público (07/02/2009).

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